Joana tinha olhos castanhos e cabelos azuis. Não, não. Era o contrário. Cabelos azuis e olhos castanhos. Não, também não era isso… Ela tinha olhos azuis e cabelos castanhos. Sim, acho que era assim. Pouco mais de vinte anos, estava passando por muitos momentos complicados, todos ao mesmo tempo. Joana não queria mudar, mas não gostava de ser como era. Era complexa demais até para si mesma.
Um dia descorbriu que podia ser quem ela quisesse… mas não me revelou como. Fico aqui tentando adivinhar o que se passa com ela… nunca mais a vi, mas ela me escreve. Todos os dias. Chego em casa e sempre há uma carta, bilhete, lembrete de Joana na caixa de correio. O que nos aproxima, ao passo que nos distancia sempre da realidade. Acho que Joana não muda de vida de nunca… e pelo que vem me dizendo, talvez não me deixe mudar também.
Por enquanto, apenas releio cem vezes o último bilhete, e tento desvendar uma alma mais cheia de segredos e obscuridades que a minha própria. Às vésperas de perder a si mesma, Joana descobriu um jeito de nos mantr em contato, ainda não decifrei como acontece, mas ela consegue sempre ser pontual. E no mais? Pouco me importa se ela existe ou não, se é louca ou normal, bonita ou feia, alta ou baixa, ela é a única a quem eu entendo em sua totalidade e que me entende na minha, que me ama sem reservas e que me poupa de histórinhas vazias de finais de semana com namorado. Joana me poupa das dores, me encontra nas vésperas. em todas as minhas vésperas, mesmo que sejam vésperas de ontem.
“Marcela
Sei que tudo aqui anda bem melancólico.
Apesar de dolorida, acho a melancolia bonita.
Sorrirei, tomara.
Joana”
